Meu relato de parto (ou partos)

Eu me preparei para escrever um relato de parto natural lindo e emocionado, mas não é o que temos para o momento. Tive dois partos: um natural, na Casa Ângela, e um cesáreo, no Hospital M. Boi Mirim. Sofia nasceu, linda e fofa, no dia 15/01, provando mais uma vez que não temos controle algum quando o assunto é ser mãe.

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Como vocês sabem (escrevi aqui), já estava rolando uma super ansiedade pelo nascimento da Sofia. Na terça-feira, dia 12, fui a um acupunturista especializado que fez dois trabalhos em mim: um para relaxar e fugir dessa ansiedade (minha e das pessoas) e outro para estimular o trabalho de parto, já que tinha entrado na 40a. Semana.

E foi batata. Na madrugada já comecei a sentir as contrações. Para quem já teve cólica renal, é semelhante. Talvez pior. Kkk

Eu tinha consulta cedinho na Casa Ângela e pensei: já vou ficar lá hoje. Cheguei lá e, como no domingo anterior, estava com pressão alta – coisa que nunca tive na vida e começou a partir da 40a. Semana de gestação, só pra ajudar…

Fizemos o primeiro cardiotoco e a Sofia não estava muito animada. Provavelmente porque eu sempre tomo ótimos cafés da manhã e nesse dia não tinha tomado nada (porque saímos muito cedo e pelas contrações).

Então ficamos lá na Casa Ângela em observação. Elas monitoraram minha pressão, fiquei na banheira pra aliviar a dor, coloquei minha playlist de TP (trabalho de parto), almocei a comidinha gostosa de lá e nos sugeriram voltar pra casa e nos preparar pro TP de verdade. Saí de lá por volta das 13 hs já com 4 de dilatação.

Em casa continuei com dores o dia todo, mas as contrações não pegavam ritmo. Mas, como já tinha sido alertada, elas aumentavam de intensidade. Às 20 horas (umas 20 horas depois da primeira contração) precisava de bolsa de água quente e massagem do marido na lombar para suportar (e, lembrem-se, sou bem resistente à dor). Ligamos pra Doula Bruna Cortês, que mora aqui em Santo André e iria nos acompanhar até a hora de voltar pra Casa Ângela e lá também, claro.

Ela chegou e as contrações malucas continuaram, ainda sem ritmo. (Acho que eu sou uma pessoa sem ritmo, concluí).

Lá pelas 22 h minhas pernas começaram a reagir às contrações. Elas tremiam, enrijeciam e doíam, muito. E doeriam até o último minuto do TP. Não sei qual a relação das pernas com as contrações, mas comigo foi assim.

Não sei a que horas tivemos uma divisão de água: vômito. Ele marcou o início de uma dor ainda mais maluca. Meu marido ligou pra Casa Ângela que falou que era normal por causa da dor e pra continuarmos monitorando o tempo das contrações pra ir pra lá.

Nessa hora eu já não conseguia acompanhar todos os raciocínios e conversas.

Fui para o chuveiro, fiquei gastando toda a água da Cantareira na minha lombar. Dançava e cantava (na minha cabeça): “Só sei dançar com você, isso é o que o amor faz”. E pensava em um mantra que li em algum relato: “Desce, desce, abre, abre.”

Decidimos ir pra Casa Ângela à 1 hora da manhã. Foi uma delícia #sqn ir até o Campo Limpo (uns 40 minutos de casa), tendo contrações. A Bruna foi atrás comigo pra ir massageando minha lombar e minhas pernas balançaram durante os 40 minutos, balançando até o carro.

Chegando lá a parteira Aline me recebeu e disse que passaria por consulta. Nessa hora tive um pequeno surto. Estava morrendo de dor e sabia que não precisava checar pra saber que não sairia mais da Casa. Mas mesmo assim tive que passar pelo cardiotoco dos infernos (nunca mais quero ouvir esse som – até querer ter outro filho, se é que quererei rs). Depois do cardiotoco, que pelo que lembro estava ok, fizemos o exame de toque e estava com 8 de dilatação.

Sentia um calor absurdo (como sempre durante a gravidez) e o Ricardo começou a me abanar nessa hora – e só parou no dia seguinte.

Nota mental: se tiver um próximo filho, será num local com ar condicionado.

Fui pra sala de PPP (pré, parto e pós-parto). As parteiras sugeriram ir pra banheira, o que é um convite irrecusável para uma pessoa com contrações.

E lá fomos nós num mix de contrações + calor + massagem + gritos. Essa coisa toda…

(Pausa para perguntar pro marido o que aconteceu depois, porque já estava zureta).

Fiquei tentando fazer a Sofia descer no chuveiro (gastando mais água da cantareira). Elas me ensinaram a urrar para relaxar a musculatura e dei gritos que eu não sabia que era capaz. Essa parte até que teve seu lado bom, porque não estou acostumada a gritar. Mas a dor era insuportável e eu ainda tinha que arrumar um jeito de ficar de cócoras, posição que odeio, porque tenho muita dor no joelho (ainda mais pesando quase 100 quilos e ainda grávida). Usei o banquinho de parto, a bola, mas nada me fazia feliz. Dancei mais um pouco, agora sem cantar, só urrar…

Quando o dia já estava amanhecendo elas sugeriram estourar a bolsa, porque provavelmente ela estava impedindo a Sofia de descer. Aí foi feito isso, toda aquela aguaceira e tal… Mais um exame de toque e eu estava com 9 cm (eu acho… o Ricardo não lembra de ter ouvido essa parte). Mais uma medida de pressão e elas não falavam nada. Eu só imaginava na minha semiconsciência, que deveria estar alta, senão elas falariam. Mais força, mais gritos, mais e mais dores e nada da Sofia descer.

Às 7 h, 31 horas depois do TP ter começado, as parteiras entraram na sala com uma cara meio de enterro e eu já sabia o que falariam: que eu seria transferida pro hospital por causa da minha pressão, que estava alta. Decidi pelo M. Boi Mirim no Plano de Parto, porque uma delas havia me dito que lá o acompanhante era permitido. E fomos pra lá de ambulância. E foi ainda mais gostoso #sqn ir amarrada numa maca pulando e sacolejando por uns 15 minutos, com contrações enlouquecedoras e a maldita dor nas pernas. O motorista da ambulância resistia aos pedidos de “manera nas curvas” que as parteiras faziam e eu tinha vontade de mandar todo mundo praquele lugar.

Chegamos no hospital pela emergência, claro, e tive que sair da maca e sentar numa cadeira de rodas capenga que não tinha onde colocar o pé. Delícias do atendimento público. Graças a Deus uma das parteiras falou no meu ouvido: “Não se assuste, o hospital parece ruim, mas a maternidade é ótima. Já trabalhei aqui, você vai ver”. O duro foi que o Ricardo não ouviu essa parte e, claro, ficou assustado.

Vimos umas pessoas naquela situação que vemos nos telejornais, mas graças a Deus logo fomos pro andar de cima, na maternidade. Li em alguma placa “parto humanizado” e pensei: “legal, pelo menos devem ter uma cabeça melhor”.

O Ricardo falou que a sala que fiquei era péssima, mas realmente não me lembro. Lembro do maldito cardiotoco de novo e de implorar por anestesia.

Enquanto o Ricardo dava entrada no hospital, as duas parteiras da Casa Ângela ficaram comigo. Chegou a parteira do hospital, fez mais um toque e pediu que eu fizesse força. Eu simplesmente não conseguia mais. Não tinha ar.

Colocaram oxigênio, que é uma delícia, mas logo chegou a médica pra ver o cardiotoco. Ela disse que o exame indicava algum sofrimento fetal (antes disso as enfermeiras discutiam se o exame estava ruim ou a máquina que estava falhando!).

E a médica sugeriu uma cesárea. Nessa hora se eu tivesse forças daria um beijo nela. Era tudo o que eu queria naquela hora.

Depois disso fiquei implorando pela anestesia e falava: se vai ser cesárea, pelo amor de Deus me anestesiem de uma vez.

Não sei quanto tempo demorou pra me levarem pra sala de cirurgia, mas eu continuei implorando pela mesma coisa.

O Ricardo foi comigo pelos corredores do hospital, pensei naquelas cenas de filme. Bloquearam a entrada dele no centro cirúrgico porque era uma cirurgia de emergência… E fui sozinha pro açougue.

Lá a médica fez mais um toque e viu que tinha dilatação total. Me mandou fazer mais força, fez o chamado rebordo de colo e nada da Sofia descer… Então desistiu. (Eu já tinha desistido, sinceramente).

Continuei implorando pela anestesia e ouvia alguém falar calmamente, como sempre alheios às pessoas ali, se o anestesista estava lá ou tinham que chamar… Quando a anestesista chegou quase dei um beijo também.

As agulhas nas costas não me assustavam, eu queria mesmo era me livrar daquelas contrações. Ela me mandou sentar e senti não sei quantas agulhadas de amor. Kkk

E em segundos (eu acho), a dor passou. Não sentia mais nada e abençoei aquele momento. Rs

E dormi durante o parto, exausta… Acordei com o “miado” da Sofia. Ela não chorava, miava. Como faz até hoje. Como diria a vovó, parece um gato quando a gente pisa no rabo.

A anestesista fofa veio me falar que Sofia tinha puxado meus olhos. Falou isso antes de me falar se estava bem. A médica veio me falar que o que tinha acontecido foi uma desproporção céfalo-pélvica. Ela foi legal e disse para que eu não desistisse do parto normal, que essa era uma questão entre mim e a Sofia e que com outro bebê poderia ser completamente diferente. Ou seja, não é aquele papo de obstetra de “você não tem passagem”, é “você não teve passagem para a Sofia”.

Me trouxeram a Sofia. Beijei aquela carinha linda. Depois o papai entrou e me trouxe ela de novo. Beijei mais um pouco e levaram ela pro bercinho.

Enquanto me suturavam, fiquei namorando com ela. Apesar de dizerem que os bebês não enxergam assim pequenos, tenho certeza que nos olhávamos por vários minutos… E dormi de novo.

Me sentia aliviada pela Sofia estar bem, por não estar mais com tanta dor. E por saber que minha cesárea não tinha sido uma “desnecesárea”. Afinal, ela tinha ocorrido pelos motivos que minha diva do parto natural, Ana Cristina Duarte, diz que são os motivos reais para uma cesárea. Ela disse ao Estadão:

Estadão: E quando uma cesariana realmente tem que ser feita?

Ana Cristina Duarte: Por desproporção céfalo-pélvica, ou seja, se depois da dilatação total da mulher o bebê não descer pelo canal de parto, uma condição que só se descobre no final do trabalho de parto. Também por sofrimento fetal, que é quando o trabalho de parto é cansativo demais para o bebê e tem que se fazer uma cesariana porque não dá para esperar mais. Mas o sofrimento fetal tem que ser comprovado pelo padrão dos batimentos cardíacos do bebê. Um papel com esse valor é impresso e tem de ser colocado junto com o prontuário da mulher.

Fonte: http://vida-estilo.estadao.com.br/blogs/ser-mae/os-medicos-nao-fazem-mais-parto-normal-nem-em-suas-proprias-esposas-afirma-uma-das-parteiras-mais-engajadas-do-brasil/ 

Aqui mais uma referencia sobre o tema: http://www.maternidadeativa.com.br/artigo5.html

E, claro, o que mais me preocupava: não fiz uma cirurgia marcada, não arranquei a Sofia do seu soninho. Ela acordou, disse a hora que queria nascer e me fez trabalhar muito. Liberei muita oxitocina, trabalhei por ela e com o mix de hormônios do amor . Ela escolheu sua hora e Deus escolheu o resto. Eu dizia durante a gravidez que eu havia feito tudo o que podia para ter o melhor parto. Se ele não pudesse acontecer, seria uma escolha de Deus e não do médico ou minha. E foi o que aconteceu.

Claro, rola uma frustração, um sentimento de “podia ter feito mais”.

Me senti meio desamparada na Casa Ângela, por incrível que pareça. Eu escrevi no meu plano de parto que preferia ser orientada sobre posições, hora de fazer força. Sei que funciono melhor assim. Mas o que senti foi que elas eram expectadoras. Sei que o parto era meu, mas precisava de ajuda. Em muitos momentos me irritava a passividade delas, o fato de só olharem, de saírem da sala e me deixarem só com o Ricardo, esse coitado guerreiro que foi parteiro, doulo e provavelmente sentiu todas as dores comigo. Ele me conhece, sabe que a dor que eu estava sentindo. Elas não. Tudo era normal, fazia parte… Enfim, nunca saberemos se as condutas foram adequadas, se foi tudo normal mesmo… O que importa agora é cuidar da Sofia.

E quando vier a vontade de sermos pais de novo, pensaremos de novo em qual vai ser o parto, porque essa com certeza foi traumática. No momento pensamos que a melhor alternativa é se a cegonha nos mandar, porque não queremos passar por isso de novo. A diferença entre os partos normais que li e ouvi é que a pessoa teve a compensação por tanta dor: o momento do nascimento, do bebê ir para os seus braços, ainda sujinho e tudo mais. Aquele alívio… Eu não, tive só a dor, o desespero.

Mas agora posso dizer que sou experiente em partos. Tive um parto normal e um cesáreo. Já não preciso mais me basear só na teoria. E meu presente por estudar tanto sobre o parto foi minha pacota linda, que está me deixando louca de trabalho e de amor.

3 comentários sobre “Meu relato de parto (ou partos)

  1. Emocionante!! Mais um relato de parto que leio e que deixa muito claro que não há uma manual e tudo, tudo mesmo pode acontecer. Eu não consegui ter parto normal e realmente acho que não tenho esse dom… E já estou muito bem resolvida com relação a isso, se eu engravidar novamente, diferente das outras vezes já estou consciente que farei outra cesárea e vou feliz. Parabéns pela coragem, pela força e principalmente pelo seu lindo presente, a Sofia. Que Deus abençoe sempre.
    Beijos

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